Alves Redol… Era uma vez no Ribatejo!

Afirmava o Professor Agostinho da Silva que “Não há liberdade minha se os outros a não têm.” 

Pode-se inserir a frase do Professor na obra de um dos expoentes máximos da literatura Neo- Realista Portuguesa.

Fala-se aqui de Alves Redol, escritor com uma extensa obra centralizada numa perspetiva social focalizada especialmente na desigualdade social da época, com especial incidência no Ribatejo de onde era natural.

Ao longo da sua obra, Alves Redol soube trazer para a literatura temas, situações e personagens pouco exploradas na altura, o que lhe valeu reconhecimento publico mas também violentos ataques de muitos sectores críticos.

Quando prefaciou Barranco de Cegos, Mário Dionísio comparou a escrita Redol aos grandes clássicos mundiais que souberam trazer para a linha da frente os temas malditos da literatura, como sejam os personagens oriundos dos extratos mais baixos da população e explorar com mestria os conflitos sociais aí existentes.

O tema está bem patente (para quem o quiser ver) na narrativa de Gaibéus (1939) romance que marca profundamente o aparecimento do Neo-Realismo Português. Em Gaibéus, Redol confronta-nos com a desunião entre os homens, afinal o triste fado dos assalariados de todas as épocas.

O romance acompanha a vida (e morte) dos “ratinhos”, que na época da ceifa, deixavam a sua Beira e vinham trabalhar nos grandes latifúndios do Ribatejo e do Alentejo. Alves Redol, á época ainda no início da sua carreira literária, mas já conhecedor de lugares, situações e vivências, lança mãos á obra e transporta para a literatura a epopeia de um desses ranchos.

Romance todo ele repleto de personagens intemporais, como a assalariada Rosa, o capatazFrancisco Descalço, o patrão Agostinho Serra, Balbina da Rua Pedro Dias, o maltês Ceifeiro Rebelde, e os inesquecíveis CadetePananãoPassarinhoFomelas e Marrafa, todos eles acabam por ser parte do nosso património social e cultural.

Gaibéus é pois um escrito humano e crítico, uma denúncia social repleta de rigor, coragem e visão histórica que chama á responsabilidade a degradação da condição humana, tudo inserido numa perspetiva realista da sociedade da época.

Afirmou Redol no prefácio da obra «Esta obra nasceu quando muitos morriam por nós».

António Góis

Junho de 2018

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