Fantasia para dois Coronéis e uma piscina – Mário de Carvalho

Editado pela Caminho em 2003, este Fantasia para dois Coronéis e uma piscina, de Mário de Carvalho, viria a ganhar o prémio do PEN Clube Português para o melhor romance desse ano.

Nesta obra do início do seculo XXI, Mário de Carvalho faz um ajuste de contas com o seculo XX Português, deixando fluir aquilo que é tão natural nele, uma prosa ora irónica, ora fantasiosa, chegando mesmo às vezes a roçar o surreal ou a fábula, como os diálogos entre o mocho e o melro.

No livro, o centro do País é o Alentejo, o cenário é uma piscina e os personagens dois Coronéis na reforma.

O Alentejo aqui representará o cair do pano para os Coronéis, ambos veteranos de campanhas em África, a retirada das ex colónias e o fim do império. A piscina será um mero pretexto, num local por tradição sem água eles insistem em recordar que foi através do mar que Portugal se fez grande.

O cenário dá pois pano para mangas, e os Coronéis não se fazem rogados nos mais inimagináveis diálogos saídos do imaginário fantasioso de Mário de Carvalho.

Mais ícones do século XX surgem no romance, há uma claque de futebol que destrói uma estação de serviço, e há o personagem Emanuel Elói, vedor de água e artista de xadrez, que no seu Renault 4 percorre a região Alentejana partindo corações femininos.

Mas a crítica mordaz (satírica) ao Portugal do século XX continua num autêntico desfile quer de diálogos, situações ou personagens como a cantora pimba ou empreiteiro pato bravo.

Através do humor e da ironia, Mário de Carvalho vai neste Fantasia para dois Coronéis e uma piscina, mais uma vez criticando os costumes.

Dizia Alberto Caeiro «Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…»

Dirão os dois Coronéis da história «Desta piscina vemos, quanto do Império perdemos»

António Góis

Junho de 2018

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