Depois dos policias da língua, vêm ai os policias da literatura

Um texto de Francisco José Viegas na revista Ler, merece alguma reflexão sobre os tempos que correm e até sobre os que se avizinham, no que à literatura diz respeito.

Relata Francisco José Viegas que nos Estados Unidos várias autoras e críticas feministas se fartaram de bater em Philip Roth (que já faleceu), por o mesmo não ter dedicado algumas das suas obras ao sexo feminino (feminista).

Philip Roth, como é largamente conhecido, era Judeu, natural de uma Família Judaica e centrou maioritariamente a sua obra nas comunidades Judaicas dos Estados Unidos. Por comunidades, entende-se evidentemente Homens e Mulheres, como tal, nesse aspecto, o sexo feminino está representado na sua obra. Poucos escritores Judeus terão escrito tanto como ele sobre a família e comunidade.

Nada disto é evidentemente novo, e desde que se viu Ayatollah Khomeini a oferecer uma recompensa a quem matasse o escritor Salman Rushdie, tudo se espera.

A reflexão que a coisa merece é o facto de nos últimos anos estar a ser constituída uma espécie de polícia da literatura, direccionada para que os escritores e os jornalistas escrevam apenas e sobre aquilo que a eles, radicais da treta, lhes interessa.

Por norma, estas coisas não costumam demorar muito para chegar a Portugal. Já temos por cá os polícias da língua, logo chegarão estes também.

Diz Francisco José Viegas que os mesmos serão capazes de se insurgir sobre o facto de Eça de Queiroz não ter dedicado algumas das suas obras à temática da sardinha.

Eu sou até capaz de ir mais longe: acho que os mesmos, na sua ignorância natural, serão até capazes de convocar manifestações contra o facto de um tipo chamado Camões, nunca ter escrito um artigo num jornal sobre a problemática do euro e da União Europeia.

António Góis

Julho de 2018

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