A última viagem de Steinbeck

Corria o ano de 1960 quando John Steinbeck, então com 58 anos e já com graves problemas cardíacos, decidiu fazer a sua última viagem pela América.

Contra a vontade do médico, da mulher e do filho, comprou uma auto caravana a que chamou Rocinante, equipou-a com o que julgou necessário para a viagem, assobiou ao cão, um poodle francês chamado Charley e partiu de Long Island para uma viagem de 10.000 milhas.

Durante a viagem, Steinbeck passou pelas mais diversas peripécias, conheceu pessoas e teceu considerações ou recordou histórias dos locais por onde ia passando.

A viagem viria a dar um livro, Viagens com o Charley, publicado pela Vicking Press em 1962, pouco tempo antes de receber o Nobel da Literatura.

Durante muitos anos este foi um dos meus livros de viagem preferidos e ainda hoje, de quando em vez, volto a ele para reler uma ou outra passagem.

Há uns anos atrás, tive conhecimento de que um jornalista chamado  Bill Steigerwald, havia escrito um livro intitulado Dogging Steinbeck (2012) em que constatava vivamente os acontecimentos narrados no livro, sugerindo mesmo que alguns nunca teriam tido lugar. Entre outros argumentos,  Bill Steigerwald anunciava que Steinbeck se teria encontrado nalgumas partes do percurso com a mulher, teria dormido em Hotéis e que não teria sequer parado em muitos dos locais de que fala no livro.

No seu livro, Steinbeck relata esses encontros com a mulher. Relata também as paragens nos Hotéis. O próprio diz também ter passado por alguns lugares sem parar, o que não o impediu de tecer algumas considerações ou contar uma ou outra história sobre esses mesmos locais.

Qualquer Português que passe por exemplo em Guimarães, mesmo sem parar não se impedirá certamente de comentar «foi aqui que D. Afonso Henriques fundou Portugal».

Ignoro se John Steinbeck fez ou não tudo aquilo que relata no livro. Se não parou nos lugares que cita, pelo menos documentou-se muito bem sobre eles.

Já este Dogging Steinbeck de Bill Steigerwald, que por acaso parece não estar publicado em Portugal, mais parece ter sido escrito por alguém com um odio de estimação por Steinbeck e que buscou aqui os seus 15 minutos de fama.

Bater em alguém que havia falecido há 44 anos atrás, não parece correto. No entanto, por 15 minutos de fama, há até quem bata no Pai e na Mãe.

António Góis

Julho de 2018

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