Manuel da Fonseca, um escritor entre a arte e a realidade.

Escrevia José Saramago no início do seu livro sobre o Alentejo, Levantado do chão (Caminho, 1980) «O que mais há na terra, é paisagem».

Um dos escritores que melhor soube captar essa paisagem e transporta-la com arte para o cenário das suas histórias, foi sem dúvida, Manuel da Fonseca. Nascido em Santiago do Cacém (1911) partiu para Lisboa logo após os estudos primários e foi ai que frequentou o colégio Vasco da Gama, o liceu Camões e a Escola de Belas Artes. Periodicamente regressava a Santiago do Cacém.

Cedo começou a escrever sobre o Alentejo, contos e poemas, publicando alguns deles em jornais e revistas da época, casos de Vértice, O Diabo, Seara Nova, ou Sol Nascente, o que levaria Mário Dionísio a dizer que «Manuel da Fonseca nasceu para revelar o Alentejo». Procurou fugir à corrente Neo-Realista nem sempre o conseguindo. Numa das suas últimas entrevistas (jornal Expresso, 20-03-1993) dizia: «foram os críticos que acharam que eu era Neo-Realista. O Neo-Realismo foi uma coisa que o Joaquim Namorado arranjou para fugir à censura».

O seu primeiro livro, Rosa dos Ventos (1940) foi de poemas e em edição de Autor. De salientar que um dos poemas deste livro, O sol do mendigo, (originalmente publicado em o Diabo de 03 de julho de 1938) seria mais tarde gravado em disco pelo popular cantor Paco Bandeira. Olhai o vagabundo que nada tem/ e leva o sol na algibeira. Também em 1975, o cantor Adriano Correia de Oliveira viria a imortalizar o poema, Tejo que levas as águas, em disco.

Foi sobretudo com poemas e contos que na altura se fez notar. O primeiro romance, Cerromaior, só viria a lume em 1943 publicado então pela editora Inquérito. Em 1951 saiu mais um livro de contos, O fogo e as cinzas, por muitos considerado a sua obra-prima. Sem dúvida alguma que nos contos deste volume está presente a genialidade de Manuel da Fonseca. Mestre da frase curta, eficiente e conclusiva, descrevia com enorme precisão um qualquer cenário enquanto nos contava simultaneamente a história do mesmo. E fazia-o em meia dúzia de frases. O início do conto O largo, é no mínimo épico:

«Antigamente, o largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido. O pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila».

No conto A Campaniça, do volume também ele de contos, Aldeia Nova (1942)

«Valgato é terra ruim.
Fica no fundo de um córrego, cercada de carrascais e sobreiros descarnados. O mais é terra amarela, nua até perder de vista. Não há searas em volta. Há a charneca sem fim, que se alarga para todo o resto do mundo. E, no meio do descampado, no fundo do vale tolhido de solidão, fica a aldeia de Valgato debaixo de um céu parado.
Valgato é uma terra triste».

Muitas vezes acusado de retratar o Alentejo de uma forma sombria, quer na paisagem quer nas gentes, contrapunha: «não é uma forma sombria mas a verificação de uma realidade».

Em 1958 saiu aquele que viria a ser o seu maior romance, Seara de Vento, editado pela Ulisseia. Este é sem dúvida um dos grandes romances Portugueses da segunda metade do século XX.

António Góis

Agosto de 2018

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