#02 – Manuel da Fonseca, um escritor entre a arte e a realidade

Manuel da Fonseca costumava dizer que reescreveu por três vezes Seara de Vento. Qualquer das versões era mais longa que a versão que viria a ser publicada. No fim, foi preciso cortar deliberadamente algumas partes, para conseguir assim adensar o romance dando-lhe o ritmo mais vivo que idealizara para a obra.

Originalmente tinha dado ao manuscrito o título de Tempo de Lobos, mas ao saber que Aquilino Ribeiro ia publicar um romance intitulado Quando os lobos uivam, resolveu mudar o título para Seara de vento.

Seara de vento deve ser entendido antes de mais como uma denúncia. A obra baseia-se no assassinato do camponês António Dias Matos pela GNR no ano de 1932, na Aldeia de Trindade, Baixo Alentejo. Manuel da Fonseca apenas muda aqui o nome aos personagens. Surge então o marginalizado Palma que encarna o camponês que na época não caia nas boas graças do Latifundiário local.

Não fora pela escrita de Manuel da Fonseca, a verdadeira história teria ficado por contar, como por contar ficaram as histórias de outros Palmas espalhados por todo o País, já que na altura só surgiu nos jornais a versão do regime. Uma das características de Manuel da Fonseca, era esta. Ao longo da sua obra sempre tentou dar voz aos sem voz, escrevendo a história dos sem história, e nesse campo Seara de vento é talvez uma bandeira levantada bem alto num tempo em que se não podiam levantar bandeiras. E isso acabaria por lhe trazer alguns dissabores, quer com a censura, quer com a polícia política do regime, porque tal como Redol fizera no Ribatejo, ele trouxe também para as luzes da ribalta os excluídos da sociedade, aqueles que no latifúndio tentavam sobreviver entre a miséria e a paisagem.

Seara de vento, relata pois a história mil vezes repetida mas sempre renovada do camponês que não verga ao agrário. É acusado de roubo, nunca mais consegue trabalho, mete-se no contrabando para conseguir alimentar a família e por causa disso a mulher é presa e suicida-se na prisão. Mata o agrário da zona, causador de todos os seus males, e em seguida com os filhos e a sogra, mete-se no casebre armado de uma espingarda onde espera o assalto final da GNR.

A escrita de Manuel da Fonseca, sendo na sua maioria sobre a temática rural, foge no entanto ao folclorismo, aspecto que seduziu alguns outros autores. Em Seara de vento destaca-se (para alem do vento que acompanha toda a obra) a personagem de Amanda Carrusca, a sogra do Palma, talvez a personagem mais bem conseguida do romance.

Ainda hoje, por sobre a planície Alentejana pairam certamente os fantasmas dos Palmas e das Amandas Carruscas do passado, talvez esperando em vão um ajuste de contas que a história lhes continua a negar. Afinal, eles eram os sem história e não fosse por escritores como Manuel da Fonseca, nunca ouviríamos falar deles.

António Góis

Agosto de 2018

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