No Coração das Trevas, com Conrad

 

   O Coração das Trevas (Heart Of Darknes) foi publicado em Inglaterra como livro em 1902. Antes, havia sido publicado em três capítulos na revista Blackwood Edinburg Magazine, em 1899.

  O livro, ainda hoje considerado por alguns sectores da sociedade como uma escrita colonial e racista, tem evidentemente que ser lido e pensado como um produto da época em que foi escrito, uma vez que a narrativa se situa no final do Sec. XIX em África, mais precisamente no Congo.

  Por esta altura (finais do Sec. XIX) o Império Britânico era o maior em todo o mundo, dando enfase à célebre frase «O império onde o sol nunca se põe». Estava-mos então na Era Vitoriana, que viria a terminar em 1901 com a morte da Rainha Vitória e embora a narrativa se situe no Congo, na altura uma colónia da Bélgica, as condições de colonização eram semelhantes.

  No que respeita às acusações de racismo, lendo o livro (este e outros de Conrad) e conhecendo minimamente a história do autor, facilmente se constata tratar-se antes de uma crítica ou mesmo denúncia do imperialismo. Basta ler logo nas primeiras páginas uma das frase de Marlow (o narrador). «Aquela gente não tinha lá grande préstimo. Não eram colonizadores, ao que suponho o seu império era espremer e mais nada».

  Joseph Conrad (1857 – 1924) nasceu na Ucrânia, filho de um casal de Polacos no exilio. Tendo os pais falecido cedo, foi o jovem Conrad criado na Polonia por um Tio. Aos 17 anos viaja para Marselha e inicia a carreira de marinheiro. Com 21 anos sabia falar e escrever Inglês fluentemente, tornou-se Capitão de um navio e em 1886 conseguiu a nacionalidade Britânica. Em 1890, depois de correr meio mundo, Congo incluído, abandonou a Marinha e ficou a viver em Inglaterra dedicando-se a tempo inteiro à literatura. Nos primeiros anos escreveu sobretudo contos e folhetins para revistas e jornais. O seu primeiro romance, Almayer’s Folly, só foi publicado em 1895, a que se seguiria An outcast of the islands (1896) e The Nigger of the “Narcissus ( O Negro do Narciso) em 1897.

  O Coração das Trevas saiu então em formato de livro em 1902, no mesmo ano em que Arthur Conan Doyle publicava também em Inglaterra O Cão dos Baskervilles, e um ano depois de Thomas Mann ter lançado na Alemanha Os Buddenbrooks. Na altura, em Portugal quase tudo girava ainda à volta de Eça de Queiroz, falecido em 1900, e muitos dos seus livros estavam agora a ser publicados a título póstumo. Assim em 1901 saiu a Cidade e as Serras e em 1902 o volume Contos. No Brasil era publicada a obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, uma epopeia Sociológica, Geográfica e Histórica sobre o Sertanejo.

  Mas de que trata a narrativa de O Coração das Trevas?

  Toda a história gira à volta da misteriosa figura de Kurtz, um comerciante de marfim que se encontra no coração de África, mais propriamente no Congo. Kurtz é para os locais como um Deus, e para os de fora, uma figura mística. Para narrador, Conrad inventa um personagem, Marlow, um verdadeiro alter-ego. Marlow, segundo Conrad, era um marinheiro meio vagabundo, que fazia dos navios a sua casa e do mar a sua terra.

  E é este alter-ego de Conrad que conta a história aos marinheiros, ali mesmo no estuário do Tamisa enquanto esperam que a maré encha e permita a partida do Nellie, um navio de recreio onde se encontram.

  Marlow conta então aos marinheiros a viagem que o levou até esse singular mundo de trevas, em pleno Congo onde iria resgatar Kurtz. Mas, para chegar a Kurtz era preciso subir o rio, e para Marlow subir o rio era como viajar para trás até às primeiras idades do mundo. Uma pessoa perdia-se naquele rio como num deserto. É ao longo desta viagem que Marlow contacta com as trevas do título, patentes no coração dos homens que haviam colonizado não só a terra mas também as gentes. Miséria, exploração e morte, são o lado negro que Marlow encontra ao longo desta viagem. Fascínio e horror, o lado mais escuro da alma dos homens. Todo o drama se desenrola na floresta, mas ao mesmo tempo vai-se desenrolando também na mente do narrador e é sobretudo uma reflexão acerca da natureza humana.

  O Coração das Trevas é um livro que se lê depressa, mas que leva muito tempo a esquecer, se é que se consegue esquecer. Conrad costumava dizer: esta e outras histórias, foi tudo o que trouxe de África.

 

In, Histórias da Literatura

“10 Romances do Século XX´´

         de, António Góis

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