O Som e a Fúria – William Faulkner

   

   Para quem nunca leu William Faulkner (1897–1962), este O Som e a Fúria (1929) não será certamente a melhor opção para começar. Para entrar no mundo de Falulkner, deve começar-se pelos contos e avançar gradualmente para os romances. O Som e a Fúria é um romance complexo, talvez o mais complexo que Faulkner escreveu.

   O Livro é narrado a quatro vozes e com todas as narrativas a conterem lacunas, principalmente as duas primeiras, mas essas mesmas narrativas acabam por se completar umas às outras para um “entendimento´´ final da obra. O facto de a palavra “entendimento´´ aqui surgir entre aspas não é gratuito, porque mesmo depois de terminado o livro, ainda subsistem dúvidas.

   Por esse motivo, em 1945 Faulkner escreveu um apêndice para a obra. O texto intitulado, Compson: 1699-1945, foi introduzido em algumas edições posteriores a 1946 e também no volume The Portable Faulkner desse mesmo ano. Com a leitura desse texto, fica mais esclarecida a história dos personagens, não só a parte anterior a O Som e a Fúria, mas também o seu destino depois que acaba o romance.

   Mas de que trata O Som e a Fúria?

   O livro trata essencialmente da queda da aristocracia no Sul dos Estados Unidos do pós-guerra civil, com enfoque na família Compson, que aqui personifica esse mundo aristocrático em queda livre, e a relação entre os membros da citada família. O Sul dos Estados Unidos foi o campo de eleição da obra de Faulkner, e em O Som e a Fúria ele não deixa os créditos por mãos alheias.

   Na história, como atrás foi dito, existem quatro narradores. Três dos irmãos Compson, e o próprio Faulkner.

   Na primeira narrativa temos Benjy, o irmão com perturbações mentais, embora conte já com 33 anos, ele continua com a mentalidade de uma criança de 3 anos. O segundo narrador é Quentin, o irmão universitário. Na terceira narrativa surge a voz do irmão Jason que reencarna em si o pior que o sul da altura tinha para oferecer. A quarta narrativa é do próprio Faulkner, centrada na personagem Dilsey, a criada negra da família.

   De salientar é também o facto de o livro não ter uma estrutura narrativa cronológica, antes esta move-se abruptamente no tempo ao sabor das vozes narrativas aqui implantadas por Faulkner. Para além dos irmãos narrativos, há também o resto da família, o Pai alcoólico, a Mãe neurótica, e sobretudo a Irmã Caddy, que apesar de não ter voz narrativa, está presente em todas as narrativas. Pode-se mesmo afirmar que é o epicentro da obra, a personificação do desmoronar da familia, já que é a partir das suas acções que o drama familiar se começa a desenhar.

   A decadência dos Compson, personifica por sua vez a decadência do Sul do pós-guerra civil.

   É no Sul derrotado e humilhado que se passa a história de O Som e a Fúria. E é neste Sul, longe da industrialização e do progresso, que se movem os narradores e a restante familia Compson. Dentro deste Sul, Faulkner cria um Condado imaginário, o Condado de Yoknapatawpha (que viria a servir também para outras obras) e povoa-o com personagens bem representativas da época.

   Para o título Faulkner iria inspirar-se em Shakespeare, mais propriamente na obra Macbeth: «a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido nenhum».

   E nesta história de vidas existe de tudo um pouco, principalmente conflitos, quer familiares (Caddy), quer raciais (Jason), quer mesmo existenciais (Quentin).

   Na altura em que foi publicado o livro não fez grande sucesso, certamente fruto da sua difícil leitura, mas com o tempo viria a tornar-se um clássico.

   Nesta década, outros autores publicaram livros que ficariam na história da literatura. James Joyce publicara Ulisses (1922), Scott Fitzgerald surgira com O Grande Gatsby (1925) e Hemingway lançou Adeus às Armas nesse mesmo ano (1929). No México, Carlos Fuentes publicou A Morte de Arténio Cruz (1928) e em Portugal Aquilino Ribeiro tinha nas livrarias O Malhadinhas (1922). O próprio Faulkner lançaria ainda outro livro durante o ano de 1929, intitulado Sartóris. Neste ano, Thomas Mann ganharia o Nobel da Literatura.

   William Faulkner é hoje considerado um dos percursores do romance moderno nos Estados Unidos, a par com nomes como Fitzgerald, Steinbeck, Hemingway ou John dos Passos. Venceu o Nobel da Literatura em 1949, o National Book Awards em 1951 e dois prémios Pulitzer em 1955 e 1962.

   Faleceu em 1962 deixando uma extensa obra onde é possível encontrar romances, novelas, contos, poesia e argumentos para cinema, como o clássico Á Beira do Abismo, um original de Raymond Chandler.

António Góis

Setembro de 2018

#viagenspelaliteratura

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