#00 – O Romance de Aventuras – Prólogo

   

  Herdeiro das grandes epopeias míticas e das narrativas de viagem, o romance de aventuras continha uma estrutura simples em três partes que passava por: 1 – O herói (na maior parte das vezes um jovem) partia para a aventura. 2 – O herói vivia a aventura (correndo grandes perigos. 3 – O herói regressava da aventura (modificado a nível material ou moral).

   As aventuras eram quase sempre vividas em lugares distantes e exóticos, como sejam um novo continente recentemente descoberto, uma ilha, uma floresta, um deserto ou mesmo uma cidade longínqua.

   O herói partia, vencia os adversários, e regressava com o tesouro ou com o amor da sua vida. A recompensa era sempre monetária ou emotiva.

   Estes romances eram na sua maioria escritos por autores europeus, DeFoe, Dumas, Stenvenson, Haggard, Salgari ou Verne entre outros, já que os americanos quando por fim aderiram à onda, com uma ou outra excepção, limitaram-se a escrever romances sobre a conquista do oeste. As excepções foram naturalmente Burroughs, Twain e Jack London.

  O apogeu do romance de aventuras deu-se no Século XIX e quase sempre começavam por ser publicados em folhetim nos jornais da época. Terminada a publicação nos jornais, e dependendo da aceitação dos leitores, eram então publicados em livro.

   Muitos dos heróis dos romances de aventuras eram jovens. Tal facto levou a que no início do século XX surja o estranho fenómeno do relançamento destes romances como literatura juvenil por parte de editores pouco escrupulosos. O processo era simples e consistia no seguinte. Pegavam no texto, cortavam as partes mais sérias, faziam um condensado com as partes de mais acção, e lançavam o livro como literatura juvenil.

   Para todos os efeitos, no seu original, estas obras são romances de aventura e não literatura juvenil. Até porque na sua maioria foram primeiro lançados como folhetins nos jornais e eram lidos por adultos e não por crianças.

  Seguindo a ordem de ideias destes editores, teríamos que chamar a D. Quixote literatura para a terceira idade, um qualquer policial onde o protagonista fosse um ladrão seria literatura para ladrões, e imagine-se, algumas das obras de Jack London serial literatura para animais.

   A literatura juvenil existe, como bem sabemos. Bons exemplos da mesma são as obras de Edith Nesbit (1858 – 1924) que escreveu A história dos caçadores de tesouros (1898) e Cinco crianças e um segredo (1902), ou Enid Blyton (1897 – 1968) com as series de livros dos Cinco e dos Sete. Dizer que Robinson Crusoé ou a Ilha do Tesouro é igual a uma aventura dos Cinco é no mínimo pouco credível, já para não dizer que é motivo justificado para acesa reclamação por parte de quem lê ou estuda os clássicos.

   O grande impulsionador do romance de aventuras em língua Inglesa foi Daniel DeFoe (1660 – 1731) ainda no Seculo XVIII com o romance Robinson Crusoé em 1719. Mas, no Século XVIII, pouco mais se viria a escrever no que ao romance de aventuras diz respeito. Só mesmo no Século XIX se viria a assistir ao surgimento dos romances/folhetins de aventuras nos principais jornais da época com títulos como, Ivanhoe, Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo, Robin Hood, A Ilha do Tesouro, As Minas de Salomão, O mundo Perdido, etc.

  Mas nem tudo eram rosas, e muitos dos autores dos romances/folhetins eram acusados de não escreverem os mesmos. Era o caso de Alexandre Dumas, que para além de August Maquet, tinha mais de cinquenta escribas para lhe escrever os folhetins para os jornais. Outro dos casos, era o também Francês Ponson du Terrail, contemporâneo de Dumas e criador do romance Os Dramas de Paris e do célebre personagem Rocambole. Empregava igualmente inúmeros escribas entre os quais Paul Féval, que depois de deixar de escrever para Terrail, viria a inventar o personagem Lagardére sobre o qual escreveria uma série de livros em nome próprio. Outro dos casos, embora um pouco diferente, é o de Emilio Salgari. Os romances de Salgari faziam tanto sucesso na sua época que houve inúmeros seguidores da sua obra. Havia pois inúmeros escritores a escrever romances à Salgari, sendo que alguns até os assinavam como Emilio Salgari. Não se sabe assim muito bem dos cerca de cento e cinquenta romances assinados como Emilio Salgari, quais os que foram de facto escritos pelo próprio.

   Este boom, viria a durar até às primeiras décadas do Século XX, altura em que o romance de aventuras parece ter desaparecido da literatura como que por magia. Mas não desapareceu. Reinventou-se apenas. Mudaram-se os heróis, mudaram-se os cenários e o romance de aventuras actualizou-se e adaptou-se aos novos tempos.

   Os heróis do romance de aventuras mudam-se agora para a bd, para o cinema, e para a tv. Surgem os cowboys justiceiros, os detectives duros, os astronautas que exploram novos planetas e os agentes secretos que salvam o mundo em cada aventura. Mas, também estes precisaram de se reinventar, e assim nas últimas décadas do Seculo XX, eis que ficamos entregues aos Super- heróis e aos vigilantes justiceiros do cinema e da tv.

   Os textos que se seguem, abrangem o período desde 1719, altura do lançamento de Robinson Crusoé, até 1914 quando saiu em livro a primeira aventura de Tarzan.

 

In, Histórias da Literatura

“O Romance de Aventuras´´

de, António Góis

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